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sábado, 6 de novembro de 2010

Dia do Nordeste

Nossa família retornou ao Nordeste em 1995. Era um sonho antigo alimentado por minha mãe e minha avó. Vó Maria é de Itororó, minha mãe de Cândido Sales, aqui na Bahia. Nossos tios e nossa mãe foram para São Paulo em 1975 porque aqui não possuíam nada, nem terra, nem casa, nem escola, nem raiz. Em São Paulo estudaram mais um pouco, um tantinho só, o que estudou mais terminou o ensino fundamental. Trabalharam muito, receberam não tão muito. Perdemos um tio para a violência paulistana, outro permanece lá, vinte e cinco anos de trabalho e vivendo ainda de aluguel. Mas minha vó e minha mãe desejavam voltar. Voltamos.

Apesar de terem morado lá durante vinte anos (doze para mim e nove para o Keke), a família nunca deixou de ser nordestina. Pais, tios, vizinhos, ao nosso redor sempre tiveram pernambucanos, paraibanos, baianos, cearenses, ‘nortistas’ no dizer geral. E a gente cresceu assim, ouvindo que baiano é preguiçoso, pernambucano é briguento, paraibana é mulher-macho, cearense é cabra perigoso, os paulistinhas eram metidos a bestas, carioca malandro, mineiro cabreiro. Mas de paulistas no meio, só as crianças.
A Bahia na minha mente figurava como alguma coisa entre um paraíso perdido, um deserto sem muros altos ou grades, uma terra de segurança e traquilidade. Quando viemos não faltou gente para dizer que passaríamos fome e cresceríamos analfabetos. Ironicamente nossa vida por aqui foi mais confortável. Eu já estou graduada e o Keke está a caminho disso. E nunca fomos ricos. 

Na minha cidade ainda dá pra sair de casa e esquecer de trancar a porta. Os muros não precisam ser tão altos. Dá pra saber o nome de todos os moradores do bairro e ainda decorar junto o nome dos pais e avós. Pela praça central da cidade desfilam os mais ricos e os mais pobres (e quase não é possível diferenciar um do outro). Não tem escola de rico e escola de pobre, aliás, as escolas da periferia são mais novas e mais conservadas. O pessoal da zona rural, pelo que me consta, vive melhor do que o pessoal da sede, tirando o problema com a falta de água. Mas por lá tem mais emprego. Infelizmente muitos jovens ainda vão embora para buscar oportunidades. Torcemos todos pelo dia em que eles não precisem ir.

Existem diferenças culturais entre o norte e o sul, é óbvio. Mas posso dizer com convicção que não são tão grandes assim. Há problemas aqui e lá, há vantagens lá, há vantagens aqui. No geral, a realidade é a mesma.

E o meu tio de São Paulo sempre telefona dizendo que quer voltar.

Em tempo: 
Coisas que eu só tive aqui no nordeste: um quintal enorme para brincar; jogar bola na rua sem medo de ser atropelada; comer fruta tirada do pé; nadar em rio; passar por baixo do arame da cerca; atravessar mata-burro; beber leite in natura; ovo de galinha caipira; comer pamonha e curau do milho plantado no quintal de casa; ver os velhinhos tirarem os chapéus em respeito às moças que passavam; rezar em procissões; furar o pé em espinho de surucucu; correr com medo de vaca parida; admirar a floração do mandacarú; roubar manga; fazer vassoura de mato; ouvir heavy metal enquanto atravesso o sertão.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Quando o cinismo semeia ignorância


Não sei se rio ou se choro quando ouço alguém dizer que não existe preconceito racial no Brasil. Tenho vontade de rir porque penso que o sujeito está fazendo piada, dá vontade de chorar quando percebo que o sujeito leva a sério o que está dizendo. Concordo que esse tipo de discurso na boca da high society e das suas marionetes de praxe seja previsível, porém, assistir o povão engolir essas lorotas por ignorância dá tristeza.


É só analisar as respostas dos questionários socioeconômicos, o quadradinho do “pardo” é o mais popular de todos, resumão dos moreninhos, mulatinhos, cafés com leite, sararás, meio lá meio cá incapazes de assumirem que são negros. Raça no Brasil é questão de opinião, a opinião dos outros. Basta o cabelo um pouquinho mais liso, a pele um pouco mais clara para que o cidadão se salve de ser taxado como negro. A sorte é que ainda não inventaram o quadradinho que pergunta se o cabra é nordestino ou não, o que ia ter de assassinato da geografia não está escrito...


 Infelizmente, pouca gente tem orgulho de se declarar negra. E isso acontece por quê? Deve ter alguma coisa relacionada com o fato da mídia menosprezar, esconder e denegrir a população negra e daqui pra frente terá ligação com o fato dos nossos excelentes legisladores terem deixado de fora do Instituto da Igualdade Racial o artigo que obrigava percentuais de negros na televisão e nas universidades.


É mais ou menos o que a Lei Áurea fez, libertou os negros para a miséria. O Estatuto pretende defender-nos do preconceito racial, mas resguarda o direito dos telespectadores preconceituosos de assistirem a sua programação de TV regular sem personagens desagradáveis. Porque, vamos reconhecer, a televisão brasileira só consegue mostrar um negro na programação se ele for escravo, bandido ou subserviente. Mais que isso é forçar demais os neurônios dos pobres produtores. Aliás, por que tem gente que ainda assiste TV, hein?


E tem até antropólogo cara de pau para falar que as cotas raciais nas universidades são discriminatórias. Notem que não é discriminatório o fato de que as melhores universidades públicas estejam repletas de pessoas com poder aquisitivo para pagarem as melhores universidades particulares enquanto os estudantes de baixo poder aquisitivo precisam se endividar com financiamentos para freqüentarem instituições particulares de qualidade duvidosa. E ainda tem mais caras de pau para dizer que colocar pobre e preto na universidade é baixar o nível do ensino superior do país. Em baixo nível este ensino já está, pois é incapaz de criar soluções para melhorar o nível da educação básica. Desconfio que não estejam preocupados com isso, afinal, educação básica é coisa de pobre, rico estuda em escola particular.


Igualdade também é conversa de pobre, né? Rico não precisa disso, a igualdade dele é garantida por nascimento e oportunidade. Ás vezes eu fico pensando se alguém leva a sério mesmo aquela lenda velha de que um menino nascido na humildade pode se tornar o governante de um país, é o mesmo que dizer que todos os dias nascem Lulas, Mandelas, Jesus Cristos... 


Dizer que vivemos em um mundo em que a igualdade não precisa ser garantida por Lei é quase como dizer que o Juízo Final fechou a sessão e vivemos todos no Paraíso...

terça-feira, 29 de junho de 2010

O problemas dos pobres não é a chuva



“Quando chove no sertão
O sol deita e a água rola
O sapo vomita espuma
Onde um boi pisa se atola
E a fartura esconde o saco
Que a fome pedia esmola”
(Chover (ou Invocação Para Um Dia Líquido); Cordel Do Fogo Encantado; Composição:  Lirinha, Clayton Barros)
Li esta semana uma lúcida declaração do Senador Cristovam Buarque sobre a questão da chuva no nordeste. O senador lembrou aos seus companheiros no Senado que o problema do nordeste com a chuva não é porque “a chuva não goste dos pobres”, tão pouco porque os pobres não gostam da chuva.
Por aqui, a chuva é benção, é aguardada ansiosamente todos os anos para irrigar as plantações de quem não pode contar com as mega obras do governo para desviar rios de seus cursos.Quando a chuva vira vetor de destruição na região, cabe-nos entender que fatalismo não resolve a situação. A solução é prevenção e planejamento.
O povo da sertão, especialmente os pequenos agricultores, sabe conviver muito bem com os períodos de chuva e de escassez: cultiva espécies resistentes à escassez de água, planta no tempo certo, reserva energias e recursos para atravessar as estiagens, põe mãos à obra quando vê as nuvens se aproximarem.  Nosso povo gosta, precisa e respeita o ciclo da natureza. A chuva, como qualquer pessoa adulta sabe, não é uma entidade capaz de amar ou desgostar de ninguém, é apenas parte do ciclo das águas na natureza. A obrigação de se adaptar aos ciclos naturais e às mudanças que a irresponsabilidade humana causam a estes ciclos é das pessoas ... e do Governo.
Em sua declaração, Buarque distribui muito bem as responsabilidades sobre as tragédias  humanas ocorridas no nordeste. A responsabilidade é dos políticos, que deveriam usar os recursos e conhecimentos já existentes para evitar as perdas humanas e econômicas, e é também do povo, “porque não despertaram para um fato: o risco de que a próxima chuva destrua sua casa está dentro da urna onde depositam seus votos".
A insistência do governo em ignorar coisas essenciais (como áreas de risco de desmoronamentos e enchentes, regiões com baixa produtividade econômica em decorrência da dificuldade do acesso á água) só pode nos levar a mesma conclusão do senador Buarque: quem não gosta dos pobres são os políticos, não a chuva.
E adivinhem! Estamos no ano de eleição. Pois é, cuidado para não digitarem besteira na hora do voto. Urna não é pinico. É mais útil eleger um político com propostas concretas para enfrentar os problemas da sua região do que eleger aquele que te deu um saco de cimento. A não ser que você ache que um saco de cimento basta para desviar o curso de uma enchente.