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segunda-feira, 25 de julho de 2011

( x ) Parda

Identidade é coisa importante, concordam? Imagine-se sem saber responder a perguntas simples sobre você mesmo, como a cor dos olhos, o local de nascimento, a cor da pele... Mas peraí, muita gente tem problemas para definir a cor de sua pele. Eu, por exemplo, venho me incomodando com isso há certo tempo. É uma questão que deveria ser bem simples de ser respondida, mas me deixa pensativa às vezes.

Sempre usei o refúgio de uma designação intermediária para me furtar a pensar sobre o assunto. Todas as vezes que precisei preencher um questionário com a pergunta “Qual é a sua cor?” seguramente eu marquei um X em “parda”. Essa resposta sempre me serviu muito bem, afinal, eu não sou branca, e disso tenho absoluta certeza. Se eu perguntar à minha mãe, ela me responderá que é morena ou parda também. Se eu pudesse perguntar aos mortos, não sei o que meu pai responderia, mas pelo que me lembro dele, era uma mistura de negro e índio. A mesma mistura do meu lado materno, meu bisavô era filho de um negro casado com uma índia “pegada no laço” conforme conta minha avó, que é uma simpática senhora negra de cabelos lisos e grisalhos e nariz afilado. Do lado paterno eu herdei o nariz largo e os lábios mais grossos, mas não herdei o cabelo pixaim de algumas das tias. A altura deve ter vindo do meu avô paterno, este sim um branco de olhos claros. Todos os irmãos da mãe da minha mãe são meio negros e meio índios exceto uma irmã que fugiu de casa cedo. Uma salada, minha família. Conversando com meu irmão dizíamos que poderíamos os dois ser confundidos com algum indiano ou islâmico, ele pelo auxílio da barba, eu se deixasse os cabelos longos. “Somos brasileiros”, alguém diria, em tom de definir tudo por termos simples. Sim, mas somos todos iguais por ser brasileiros? Se somos todos iguais, por que quando digo que sou negra as pessoas saem em defesa (de que?) e ponderam logo que minha pele é “mais ou menos clara” e meu cabelo é “bom”? Se dizer que sou brasileira elucida tanto, qual o problema em eu adotar o X da cor negra daqui em diante? 

Por que temos de nos envergonhar do que somos ao ponto de fingirmos ser outra coisa inconscientemente? A mim é motivo de orgulho dizer que sou neta de agricultores  que nunca possuíram a própria terra, migraram procurando melhores condições, terminaram na periferia de uma grande cidade, seus filhos se tornaram operários de fábricas de montagem, cobradores de ônibus e domésticas. E desses pequenos trabalhadores urbanos nasceu a atual geração: eu, professora; meu irmão, um futuro jornalista; minha prima ainda estudante secundarista.

Eu me lembro de ter lido que nessa vida ou se é branco e rico ou se é preto e pobre. Não tem meio termo, a cor da pessoa é a cor do dinheiro que ela tem. Sob esse ponto de vista, então, a minha família foi branqueando conforme arrumava empregos melhores? Se eu fizer Medicina e deixar o emprego de professora terei me tornado uma ariana? Acho que não, a discriminação não olha classe social. Estão duvidando? Presidentes ou não, sempre vão aparecer os dedos acusatórios dizendo com todas as letras de imprensa ao Obama que ele é negro, ao Lula que é nordestino, à Dilma que ela é mulher, ao Evo Morales que ele é um índio.

Já percebi que posso passar pela vida sem definir qual a minha cor, os outros estarão sempre dispostos a me dizer... “aquela fulana ali é branca e aquele fulano ali é negro, e você, como estou em dúvida, não vou favorecer dizendo que é branca e também não vou prejudicar chamando de negra, você é parda.”

Só me incomoda o fato das pessoas se sentirem obrigadas a me consolar de algo que, na verdade, somente me orgulha.

sábado, 6 de novembro de 2010

Dia do Nordeste

Nossa família retornou ao Nordeste em 1995. Era um sonho antigo alimentado por minha mãe e minha avó. Vó Maria é de Itororó, minha mãe de Cândido Sales, aqui na Bahia. Nossos tios e nossa mãe foram para São Paulo em 1975 porque aqui não possuíam nada, nem terra, nem casa, nem escola, nem raiz. Em São Paulo estudaram mais um pouco, um tantinho só, o que estudou mais terminou o ensino fundamental. Trabalharam muito, receberam não tão muito. Perdemos um tio para a violência paulistana, outro permanece lá, vinte e cinco anos de trabalho e vivendo ainda de aluguel. Mas minha vó e minha mãe desejavam voltar. Voltamos.

Apesar de terem morado lá durante vinte anos (doze para mim e nove para o Keke), a família nunca deixou de ser nordestina. Pais, tios, vizinhos, ao nosso redor sempre tiveram pernambucanos, paraibanos, baianos, cearenses, ‘nortistas’ no dizer geral. E a gente cresceu assim, ouvindo que baiano é preguiçoso, pernambucano é briguento, paraibana é mulher-macho, cearense é cabra perigoso, os paulistinhas eram metidos a bestas, carioca malandro, mineiro cabreiro. Mas de paulistas no meio, só as crianças.
A Bahia na minha mente figurava como alguma coisa entre um paraíso perdido, um deserto sem muros altos ou grades, uma terra de segurança e traquilidade. Quando viemos não faltou gente para dizer que passaríamos fome e cresceríamos analfabetos. Ironicamente nossa vida por aqui foi mais confortável. Eu já estou graduada e o Keke está a caminho disso. E nunca fomos ricos. 

Na minha cidade ainda dá pra sair de casa e esquecer de trancar a porta. Os muros não precisam ser tão altos. Dá pra saber o nome de todos os moradores do bairro e ainda decorar junto o nome dos pais e avós. Pela praça central da cidade desfilam os mais ricos e os mais pobres (e quase não é possível diferenciar um do outro). Não tem escola de rico e escola de pobre, aliás, as escolas da periferia são mais novas e mais conservadas. O pessoal da zona rural, pelo que me consta, vive melhor do que o pessoal da sede, tirando o problema com a falta de água. Mas por lá tem mais emprego. Infelizmente muitos jovens ainda vão embora para buscar oportunidades. Torcemos todos pelo dia em que eles não precisem ir.

Existem diferenças culturais entre o norte e o sul, é óbvio. Mas posso dizer com convicção que não são tão grandes assim. Há problemas aqui e lá, há vantagens lá, há vantagens aqui. No geral, a realidade é a mesma.

E o meu tio de São Paulo sempre telefona dizendo que quer voltar.

Em tempo: 
Coisas que eu só tive aqui no nordeste: um quintal enorme para brincar; jogar bola na rua sem medo de ser atropelada; comer fruta tirada do pé; nadar em rio; passar por baixo do arame da cerca; atravessar mata-burro; beber leite in natura; ovo de galinha caipira; comer pamonha e curau do milho plantado no quintal de casa; ver os velhinhos tirarem os chapéus em respeito às moças que passavam; rezar em procissões; furar o pé em espinho de surucucu; correr com medo de vaca parida; admirar a floração do mandacarú; roubar manga; fazer vassoura de mato; ouvir heavy metal enquanto atravesso o sertão.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Quando o cinismo semeia ignorância


Não sei se rio ou se choro quando ouço alguém dizer que não existe preconceito racial no Brasil. Tenho vontade de rir porque penso que o sujeito está fazendo piada, dá vontade de chorar quando percebo que o sujeito leva a sério o que está dizendo. Concordo que esse tipo de discurso na boca da high society e das suas marionetes de praxe seja previsível, porém, assistir o povão engolir essas lorotas por ignorância dá tristeza.


É só analisar as respostas dos questionários socioeconômicos, o quadradinho do “pardo” é o mais popular de todos, resumão dos moreninhos, mulatinhos, cafés com leite, sararás, meio lá meio cá incapazes de assumirem que são negros. Raça no Brasil é questão de opinião, a opinião dos outros. Basta o cabelo um pouquinho mais liso, a pele um pouco mais clara para que o cidadão se salve de ser taxado como negro. A sorte é que ainda não inventaram o quadradinho que pergunta se o cabra é nordestino ou não, o que ia ter de assassinato da geografia não está escrito...


 Infelizmente, pouca gente tem orgulho de se declarar negra. E isso acontece por quê? Deve ter alguma coisa relacionada com o fato da mídia menosprezar, esconder e denegrir a população negra e daqui pra frente terá ligação com o fato dos nossos excelentes legisladores terem deixado de fora do Instituto da Igualdade Racial o artigo que obrigava percentuais de negros na televisão e nas universidades.


É mais ou menos o que a Lei Áurea fez, libertou os negros para a miséria. O Estatuto pretende defender-nos do preconceito racial, mas resguarda o direito dos telespectadores preconceituosos de assistirem a sua programação de TV regular sem personagens desagradáveis. Porque, vamos reconhecer, a televisão brasileira só consegue mostrar um negro na programação se ele for escravo, bandido ou subserviente. Mais que isso é forçar demais os neurônios dos pobres produtores. Aliás, por que tem gente que ainda assiste TV, hein?


E tem até antropólogo cara de pau para falar que as cotas raciais nas universidades são discriminatórias. Notem que não é discriminatório o fato de que as melhores universidades públicas estejam repletas de pessoas com poder aquisitivo para pagarem as melhores universidades particulares enquanto os estudantes de baixo poder aquisitivo precisam se endividar com financiamentos para freqüentarem instituições particulares de qualidade duvidosa. E ainda tem mais caras de pau para dizer que colocar pobre e preto na universidade é baixar o nível do ensino superior do país. Em baixo nível este ensino já está, pois é incapaz de criar soluções para melhorar o nível da educação básica. Desconfio que não estejam preocupados com isso, afinal, educação básica é coisa de pobre, rico estuda em escola particular.


Igualdade também é conversa de pobre, né? Rico não precisa disso, a igualdade dele é garantida por nascimento e oportunidade. Ás vezes eu fico pensando se alguém leva a sério mesmo aquela lenda velha de que um menino nascido na humildade pode se tornar o governante de um país, é o mesmo que dizer que todos os dias nascem Lulas, Mandelas, Jesus Cristos... 


Dizer que vivemos em um mundo em que a igualdade não precisa ser garantida por Lei é quase como dizer que o Juízo Final fechou a sessão e vivemos todos no Paraíso...

domingo, 18 de julho de 2010

Festival de Inverno Bahia: Mudança é a palavra de ordem


Bem amigos (parafraseando o mala-mor Galvão Bueno), depois de vários dias de ausência devido a uma viagem de treinamento da qual participei, cá estou novamente para falar de... Música. Mais especificamente, um evento musical pelo qual espero todo ano, na esperança de ver algo diferente do status quo massacrante que vigora aqui na Suíça Bahiana (quem inventou esse título padece de falta de bom senso, convenhamos).
Pois bem, ladies and gentlemans, dias 20, 21 e 22 de agosto o FIB (Festival de Inverno Bahia) aporta em sua 6º edição. Hora de nos rejubilarmos, regozijarmos, comemorarmos, e mais um monte de armos, but... wait!! Alguma coisa não está cheirando bem!! Hora de conferir a grade de atrações. Errr, vejamos... Jammil, Claudia Leite? What the Hell [:O]!! Todos nós não aprendemos o be-a-bá onde diz que o FIB é (era?) um festival focado em pop rock, MPB, reggae e outros gêneros musicais diversos aos que vigoram por aqui? Pois bem, bela história da carochinha essa. Agora a nata do axé e seus asseclas se armaram até os dentes e iniciaram uma invasão viking para pilhar e destruir a essência do único evento musical de grande porte da região a oferecer algo diferente do mais do mesmo entediante que está aí.
E o que dizer dos repetecos? Charlie Brown Jr de novo? Capital Inicial? Lenine? Só faltou Biquíni Cavadão e Nando Reis para formar a confraria do bis (ou tris). Independente da qualidade dos artistas, um festival que ainda não chegou à adolescência se repetir tanto não é bom sinal. Na verdade é um termômetro do estado decrépito pelo qual o cenário de rock-mpb mainstream passa. Se por um lado o cenário alternativo-independente fervilha de boas novas (Móveis Coloniais de Acajú, Cidadão Instigado, Ana Cañas e mais uma porrada de gente...), os grandes nomes vão cada vez mais se esvaindo. Uma banda como o Titãs, que está respirando por aparelhos desde o século passado, ser tratado como novidade, é sofrível de ver. Para as grandes mídias (principalmente rádio e TV), os anos 80 não acabaram, e os anos 90 se anunciam como algo a ser amplamente re-explorado. E os organizadores de festivais (a maioria) pensam da mesma maneira. Nada contra trazer novamente um artista que fez sucesso em um evento passado, mas é preciso também dar espaço para o que acontece de novo, dar um sopro de juventude, tem muito artista de enorme potencial por aí só esperando oportunidades para aparecer.
Lucros Keke, o mundo é movido a lucros... ouvi muito isso, e concordo, não adianta pegar a carona fácil da utopia ululante onde as coisas podem ser do jeito que nós desejamos, e que os céus irão conspirar para que tudo saia perfeito. Há quem diga que o FIB deu prejuízo ano passado, o que não deixa de ser uma - meia - verdade, em parte por causa do fantasma da H1N1 (a outra parcela foi pela grade mesmo, sem sal), que foi um balão de ensaio, isso sim. A voz corrente é que o Festival apenas com artistas de pop rock, MPB e reggae não segura a onda do dindim, mas afirmar isso é ignorar o êxito das edições de 2005 até 2008. Essa discussão vai longe, mas o fato é que agora a Rede Bahia e a IContent (organizadoras do FIB) farão de tudo para criar uma sucursal do Festival de Verão em pleno Inverno. Idiossincrático até a medula. Mas o importante é o money, of course my friend!
Apesar dos pesares, vou lá ver Lenine (perdi da outra vez) e Jorge Ben (palmas para quem o contratou). Talvez Capital Inicial e Titãs. Diogo Nogueira eu vou ‘curiar’. Esse ano a palavra de ordem é mudança, não tão rápida para atenuar o trauma... Em 2011 veremos o próximo capítulo. Para os otimistas, a tenda alternativa pode reservar boas surpresas. Espero voltar aqui para elogiar as escolhas da organização para ela. Ao menos.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

É de Oxum!?

Esses dias o Keke estava aqui comentando sobre a visita do Gilberto Gil a Jequié, quando o artista rebateu as críticas de alguns evangélicos contra a temática do São João da cidade, o slogan da festa fez menção a uma entidade do candomblé. Misturar festa junina com homenagem ao candomblé não chega a ser mistura de religião, porque as festas juninas da maneira que são comemoradas não tem nenhum relacionamento com religião (o São João é católico só no nome, de resto a festa é totalmente mundana). Ficou o episódio como prova de que a imagem da Bahia como o estado do sincretismo religioso por excelência é jogada de marketing, assim como muita coisa no Brasil, cartaz para turista ver.

No dia 30 de junho, mais uma vez, tivemos a oportunidade de testemunhar a mentalidade retrógrada e preconceituosa do povo (baiano, brasileiro, terráqueo): um candidato a deputado federal foi barrado por seguranças no TRE da Bahia porque trajava um adereço de candomblé. O candidato estava no tribunal para consultar a prestação de contas da campanha e foi impedido de entrar no prédio. Detalhe: ele é negro. O candidato, do PRP, fez uma representação contra o TRE/BA na Comissão de direitos humanos da Assembléia legislativa alegando discriminação racial e religiosa.

Depois do caso entornado, lógico, o Tribunal voltou atrás e disse que foi tudo um mal entendido.

Questiono os regulamentos de vestuário dos tribunais. Impor padrões de vestuário é um ato discriminatório sim, além de limitante e excludente. Então, só quem é capaz de defender os próprios interesses e os interesses coletivos são pessoas que tem dinheiro para comprar sapatos, ternos, gravatas? Os cidadãos de pés no chão são burros demais para ir aos tribunais? (Equação: preto+macumbeiro+pobre= marginal). A Justiça exclui não só a diversidade cultural, também exclui os cidadãos das classes menos privilegiadas.

O cidadão não pode registrar os filhos porque não tem calças compridas para entrar no fórum. Consultar os búzios e assistir os afoxés faz parte da nossa cultura (elevadíssima cultura, viva a diversidade!), mas os cultos africanos são bem vistos só durante o carnaval, da quarta feira de cinza em diante eles que se vistam como todo mundo.

Não vamos esquecer que os piores calhordas deste país usam ternos de grife e respondem por “doutor” e “excelência”, e são eles próprios que inventam regras idiotas sobre como as pessoas devem se vestir para ter acesso a espaços onde por direito todos deveriam ser iguais.

E assim seguimos, preconceituosos e hipócritas.