quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Cândido Sales no Dia Mundial de Luta contra a Aids



Hoje fui convocada a participar de uma caminhada em comemoração ao Dia Mundial de Luta Contra a Aids. Como profissionais de saúde, todos os dias são dia de educar para a prevenção, mas ajuda ter carro de som, bexiga e preservativos à vontade para distribuir. 

O nosso trabalho começou cedo. Fizemos uma vaquinha, saímos ontem e compramos o material para confeccionar a fantasia de preservativo gigante. Depois de uma certa ansiedade, a nossa amiga mais corajosa ficou sendo o recheio da fantasia, e se auto-batizou de Penilson. Na caminhada ela foi ganhando mais apelidos, o que nos arrancou mais risadas foi o de "rolona doida". Doida parecia, ninguém queria receber as camisinhas da mão dela, o que a obrigou a sair correndo atrás de umas adolescentes mais envergonhadas.

Foi legal perceber como a maioria das pessoas recebeu o preservativo de brinde e agradeceu. Com naturalidade. Só vi um senhor recusar de cara fechada. Acho que ele era ancião de alguma igreja, não sei. Outras senhoras recusaram, mas recusaram rindo. Muitos rapazes pediram mais, disseram que só três não era o suficiente. As moças guardavam rápido as embalagens roxas e chamativas.

Um menino com cara de ter uns 10 anos veio me pedir um preservativo, mas a enfermeira tinha dito para não entregarmos para  criança. Expliquei isso para ele, e ele insistiu: "Mas eu já tenho namorada!".

Minha colega (a que costurou a fantasia de preservativo e é bem palhaça) recebeu o pedido de uma senhora de uns setenta anos apoiada em um cajado. Ela disfarçou, pegou na mão da mulher e seguiu andando. Eu perguntei pra ela por que não quis dar o preservativo para a senhora, ela respondeu que a velhinha não precisava mais disso. E eu, "Vá saber!"

Foi um dia divertido. Infelizmente, a gente sabe que o uso da camisinha não é tão natural assim. Vemos isso pelo número de DST's que atendemos todos os dias nas Unidades de Saúde da Família. Percebemos isso pelo número de jovens que sentem vergonha de ir buscar pessoalmente o preservativo na unidade e pedem aos agentes comunitários para buscar e mais, pelo grande número de pessoas que se recusam a nos perguntar pelo assunto. A camisinha ainda é vista como um mero contraceptivo, o que é menosprezar a sua utilidade. Sei que se recomenda às grávidas que utilizem o preservativo durante a gravidez, e todos os casais que passam pelo Planejamento Familiar também são orientados a usar, além do método anticoncepcional escolhido, o preservativo. Sobre o preconceito ao redor dos pacientes de HIV, nem comento, na cidade pouquíssimos assumem a doença e o mais grave, poucos contam aos parceiros.

Mesmo assim, foi um dia divertido. Saí dele com alguma esperança.

sábado, 6 de novembro de 2010

Dia do Nordeste

Nossa família retornou ao Nordeste em 1995. Era um sonho antigo alimentado por minha mãe e minha avó. Vó Maria é de Itororó, minha mãe de Cândido Sales, aqui na Bahia. Nossos tios e nossa mãe foram para São Paulo em 1975 porque aqui não possuíam nada, nem terra, nem casa, nem escola, nem raiz. Em São Paulo estudaram mais um pouco, um tantinho só, o que estudou mais terminou o ensino fundamental. Trabalharam muito, receberam não tão muito. Perdemos um tio para a violência paulistana, outro permanece lá, vinte e cinco anos de trabalho e vivendo ainda de aluguel. Mas minha vó e minha mãe desejavam voltar. Voltamos.

Apesar de terem morado lá durante vinte anos (doze para mim e nove para o Keke), a família nunca deixou de ser nordestina. Pais, tios, vizinhos, ao nosso redor sempre tiveram pernambucanos, paraibanos, baianos, cearenses, ‘nortistas’ no dizer geral. E a gente cresceu assim, ouvindo que baiano é preguiçoso, pernambucano é briguento, paraibana é mulher-macho, cearense é cabra perigoso, os paulistinhas eram metidos a bestas, carioca malandro, mineiro cabreiro. Mas de paulistas no meio, só as crianças.
A Bahia na minha mente figurava como alguma coisa entre um paraíso perdido, um deserto sem muros altos ou grades, uma terra de segurança e traquilidade. Quando viemos não faltou gente para dizer que passaríamos fome e cresceríamos analfabetos. Ironicamente nossa vida por aqui foi mais confortável. Eu já estou graduada e o Keke está a caminho disso. E nunca fomos ricos. 

Na minha cidade ainda dá pra sair de casa e esquecer de trancar a porta. Os muros não precisam ser tão altos. Dá pra saber o nome de todos os moradores do bairro e ainda decorar junto o nome dos pais e avós. Pela praça central da cidade desfilam os mais ricos e os mais pobres (e quase não é possível diferenciar um do outro). Não tem escola de rico e escola de pobre, aliás, as escolas da periferia são mais novas e mais conservadas. O pessoal da zona rural, pelo que me consta, vive melhor do que o pessoal da sede, tirando o problema com a falta de água. Mas por lá tem mais emprego. Infelizmente muitos jovens ainda vão embora para buscar oportunidades. Torcemos todos pelo dia em que eles não precisem ir.

Existem diferenças culturais entre o norte e o sul, é óbvio. Mas posso dizer com convicção que não são tão grandes assim. Há problemas aqui e lá, há vantagens lá, há vantagens aqui. No geral, a realidade é a mesma.

E o meu tio de São Paulo sempre telefona dizendo que quer voltar.

Em tempo: 
Coisas que eu só tive aqui no nordeste: um quintal enorme para brincar; jogar bola na rua sem medo de ser atropelada; comer fruta tirada do pé; nadar em rio; passar por baixo do arame da cerca; atravessar mata-burro; beber leite in natura; ovo de galinha caipira; comer pamonha e curau do milho plantado no quintal de casa; ver os velhinhos tirarem os chapéus em respeito às moças que passavam; rezar em procissões; furar o pé em espinho de surucucu; correr com medo de vaca parida; admirar a floração do mandacarú; roubar manga; fazer vassoura de mato; ouvir heavy metal enquanto atravesso o sertão.

domingo, 31 de outubro de 2010

Deixa de ser enganador, bolinha de papel não fere nem causa dor



Prometi ao Keke que não iria expressar minha opinião política aqui no Náufragos, mas não resisti. Aí, maninho, se você ficar doído, se mexe e escreve um post explicando o porquê de votar nulo nesta eleição. Inté pra vcs.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Servidores públicos de Barra entram em greve - 25/10/2010 10:55

Servidores públicos de Barra entram em greve - 25/10/2010 10:55

Extraído da página do CAA, e em substituição da imprensa baiana, que no geral não noticia nada (especialmente quando os alvos são políticos).

Os funcionários da Prefeitura Municipal de Barra, à 675 km de Salvador, paralisaram suas atividades no último dia 22. Numa assembleia com 300 pessoas, os servidores decidiram manter o estado de mobilização até a abertura da negociação com o prefeito Arthur Silva Filho.


Os funcionários reivindicam a aprovação de um novo plano de cargos e salários para os professores e servidores em geral. Os hospitais e os postos de saúde do município também paralisaram os atendimentos.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Quando a tristeza requenta café no fogão da sua casa.

O Sol tenta entrar sorrateiro pela janela do quarto, porém encontra resistência nas cortinas negras que resguardam a vontade de permanecer no escuro. Um novo dia se anuncia, mas o desejo de continuar eternamente na noite anterior, remoendo angústias passadas, é mais forte do que a necessidade fisiológica de visitar o toalete. Nesse ínterim, a bexiga reclama da negligência alimentada pelo descaso. Paciência. Um pouco depois, a sensação se torna insuportável, e uma ida ao banheiro se torna inevitável. Tudo ‘ável’. Assim como a insônia irritável, a fome incansável, o sabor descartável do café requentado no fogão velho, cheirando a borra.

Café este, reciclado por obra de dores cíclicas, simboliza a intimidade tristonha com o vazio dos cômodos, o pó dos livros não mais abertos, meros enfeites para ninguém, exceto o próprio vazio. O sabor da cafeína desgastada é o sabor amargo das angústias, irmãos de parto a fórceps, desfigurados pelas circunstancias.

A noite volta depois do monólogo prolixo da solidão, acobertando as olheiras de um dia insone. Espera-se que ela nunca se vá, morfina negra de uma alma perdida. Mas as estrelas piscam mensagens codificadas de esperança...

Um tempo atrás...

...eu havia comentado que esperava voltar aqui para elogiar as escolhas da organização do FIB para a tenda alternativa. Pois bem, digamos que faltou ousadia. O Círculo, que já tocou em edições anteriores, está de volta e é o principal nome, junto com figuras conhecidas do público local, como Chirlei Dutra (e banda), Kessller (& banda), Allison Menezes & a Catrupia, Os Barcos... Acrescentem aí os DJ’s e Rio Vermelho, da qual desconheço o trabalho.

Não está ruim, mas poderia ser mais... ousado.

sábado, 31 de julho de 2010

Quadros Sócio Econômicos





Cá estamos, meu povo, curtindo a trilha sonora do Milton que usei para "dar clima" a esta apresentação criada no Power Point, transferida para o AquaSoft Slide Show e postada no You Tube. A paciência em aprender com tutoriais é uma benção dos Céus, vocês não acham?

Eu me achei nos meios de julho com uma pesquisa para o trabalho muito interessante, mas desorganizada e espalhada por 45 fichas de entrevista. Pensei o óbvio, "putz, eu podia jogar tudo em gráficos, ia ficar mais fácil de entender". Falar é fácil, quem disse que eu sabia fazer gráficos? Entrou a vontade de aprender, abri o programa, quebrei a cabeça, errei muitas vezes, peguei a manha e dominei a ciência. Quando eu falo, duvidam: para aprender basta precisar e correr atrás.

Em cima deste apanhado de informações sobre a micro área em que atuo será construído um planejamento de ações, em conjunto com a equipe de saúde do meu bairro, com base na identificação de problemas e necessidades da nossa comunidade.

Vocês já pararam para pensar o quanto um pouco de planejamento e reflexão faz falta na nossa vida? As pessoas, quando sabem o que querem, dificilmente traçam o caminho para chegar até lá, e passam a vida se lamentando por isso. Mas... deixa isso para lá, dar uma de livro de auto-ajuda está aquém dos meus talentos.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Quando o cinismo semeia ignorância


Não sei se rio ou se choro quando ouço alguém dizer que não existe preconceito racial no Brasil. Tenho vontade de rir porque penso que o sujeito está fazendo piada, dá vontade de chorar quando percebo que o sujeito leva a sério o que está dizendo. Concordo que esse tipo de discurso na boca da high society e das suas marionetes de praxe seja previsível, porém, assistir o povão engolir essas lorotas por ignorância dá tristeza.


É só analisar as respostas dos questionários socioeconômicos, o quadradinho do “pardo” é o mais popular de todos, resumão dos moreninhos, mulatinhos, cafés com leite, sararás, meio lá meio cá incapazes de assumirem que são negros. Raça no Brasil é questão de opinião, a opinião dos outros. Basta o cabelo um pouquinho mais liso, a pele um pouco mais clara para que o cidadão se salve de ser taxado como negro. A sorte é que ainda não inventaram o quadradinho que pergunta se o cabra é nordestino ou não, o que ia ter de assassinato da geografia não está escrito...


 Infelizmente, pouca gente tem orgulho de se declarar negra. E isso acontece por quê? Deve ter alguma coisa relacionada com o fato da mídia menosprezar, esconder e denegrir a população negra e daqui pra frente terá ligação com o fato dos nossos excelentes legisladores terem deixado de fora do Instituto da Igualdade Racial o artigo que obrigava percentuais de negros na televisão e nas universidades.


É mais ou menos o que a Lei Áurea fez, libertou os negros para a miséria. O Estatuto pretende defender-nos do preconceito racial, mas resguarda o direito dos telespectadores preconceituosos de assistirem a sua programação de TV regular sem personagens desagradáveis. Porque, vamos reconhecer, a televisão brasileira só consegue mostrar um negro na programação se ele for escravo, bandido ou subserviente. Mais que isso é forçar demais os neurônios dos pobres produtores. Aliás, por que tem gente que ainda assiste TV, hein?


E tem até antropólogo cara de pau para falar que as cotas raciais nas universidades são discriminatórias. Notem que não é discriminatório o fato de que as melhores universidades públicas estejam repletas de pessoas com poder aquisitivo para pagarem as melhores universidades particulares enquanto os estudantes de baixo poder aquisitivo precisam se endividar com financiamentos para freqüentarem instituições particulares de qualidade duvidosa. E ainda tem mais caras de pau para dizer que colocar pobre e preto na universidade é baixar o nível do ensino superior do país. Em baixo nível este ensino já está, pois é incapaz de criar soluções para melhorar o nível da educação básica. Desconfio que não estejam preocupados com isso, afinal, educação básica é coisa de pobre, rico estuda em escola particular.


Igualdade também é conversa de pobre, né? Rico não precisa disso, a igualdade dele é garantida por nascimento e oportunidade. Ás vezes eu fico pensando se alguém leva a sério mesmo aquela lenda velha de que um menino nascido na humildade pode se tornar o governante de um país, é o mesmo que dizer que todos os dias nascem Lulas, Mandelas, Jesus Cristos... 


Dizer que vivemos em um mundo em que a igualdade não precisa ser garantida por Lei é quase como dizer que o Juízo Final fechou a sessão e vivemos todos no Paraíso...

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Você já bateu o carro no poste?



A estrada vai passando tranquilamente, o tempo está bom, as nuvens te sinalizam o caminho com suaves manchas brancas no céu azul, até os cardeais fazem questão de te acompanhar em um vôo raso na ala do carango. Ele responde bem ao acelerador, dá gosto de fazer curvas com o possante. Porém, conforme se passam os quilômetros, a sintonia fina da máquina começa a se desvanecer, os pneus passam a cantar desafinadamente nas curvas mais fechadas, o motor insiste em falhar nas reduções de marcha, os freios perdem a pegada nas freadas mais fortes...

... Chamas. Fumaça afogando suas córneas, enquanto a trava da porta parece um tanto distante com o cinto te segurando. Alguns segundos de luta muda, pois diante do desespero gritar parece algo um tanto complexo para fazer. Mais alguns momentos de suspense e está livre das ferragens ardentes, com algumas queimaduras, muita tosse por causa da fumaça inalada, mas de alguma forma, vivo. Mas estará inteiro? Não restarão seqüelas?

...A imagem do carro em chamas é a imagem da alma rubra do intrépido piloto que pensou que poderia seguir impune na auto-estrada da vida. De repente um acidente, uma curva mal calculada, um poste. Instantaneamente, a crônica de um caos anunciado, que não reconhecemos por causa da névoa leitosa que insiste em nos negar a clarividência de perceber o que virá na próxima curva, no próximo cruzamento, no próximo encontro. Sem chance para novas considerações, uma decisão urgente exige ação, para salvar sua pele, salvar seu coração, salvar sua alma. Se o poste não pôde ser evitado, o que fazer para sobreviver a ele?

Amigos, eu bati o carro no poste. E vocês, em algum momento bateram os seus também?

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Fragmentos de delírios esparsos - 2

... Sentado à mesa de um boteco nauseabundo as três da madrugada, o senhor de chapéu roto trava um diálogo febril com sua dose de whisky vagabundo, que era a única coisa que o seu dinheiro poderia comprar. Sem casa, sem rumo, escuta Joni Mitchell debochar na jukebox: “Everybody's saying that hell's the hippest way to go (Todo mundo está dizendo: 'Ir pro inferno é o que há')”. Talvez por estar bêbado demais, ou por não ter nada a perder mesmo, despede-se do último gole sem mais delongas, caminha até se distanciar das luzes do posto de gasolina, até o ponto mais escuro da estradinha tortuosa. Nos seus delírios, chega em casa, abre a porta, caminha para a cama e se aconchega vagarosamente. Ainda tem tempo para balbuciar, do alto do seu torpor: “Nem um caminhão me acorda”.

Fragmentos de delírios esparsos...

... Cada indivíduo é uma canção de duração humana, variando em seus andamentos, reescrevendo sua própria partitura, executada por inúmeros regentes ao longo do seu fio vivente...

...Cinza, púrpura, musgo e translúcido. As cores e texturas do despertar torpe de um sonho intranqüilo na primavera gélida da Sibéria, onde o andarilho que não podia morrer caminhava sedento por uma dose de vodka, o suficiente para lhe proporcionar a derradeira coragem para o suicídio criogênico há tanto desejado. Mergulhar na água siberiana significaria fugir daquele inferno de neve e tons borrados da tundra predominante naquelas paragens. Na falta da vodka, acordar o salvou...

... Aquarela solar no horizonte crepuscular, cabelos bailando ao sabor do vento pela capota aberta do conversível vermelho, lágrimas em suspensão no ar quente do verão sulista. “Just don't ask me how I am”...

... Mal sabia o alquimista que vida sem a morte é fatalmente impossível...

... Sentindo você mesmo se desintegrar.

domingo, 18 de julho de 2010

Festival de Inverno Bahia: Mudança é a palavra de ordem


Bem amigos (parafraseando o mala-mor Galvão Bueno), depois de vários dias de ausência devido a uma viagem de treinamento da qual participei, cá estou novamente para falar de... Música. Mais especificamente, um evento musical pelo qual espero todo ano, na esperança de ver algo diferente do status quo massacrante que vigora aqui na Suíça Bahiana (quem inventou esse título padece de falta de bom senso, convenhamos).
Pois bem, ladies and gentlemans, dias 20, 21 e 22 de agosto o FIB (Festival de Inverno Bahia) aporta em sua 6º edição. Hora de nos rejubilarmos, regozijarmos, comemorarmos, e mais um monte de armos, but... wait!! Alguma coisa não está cheirando bem!! Hora de conferir a grade de atrações. Errr, vejamos... Jammil, Claudia Leite? What the Hell [:O]!! Todos nós não aprendemos o be-a-bá onde diz que o FIB é (era?) um festival focado em pop rock, MPB, reggae e outros gêneros musicais diversos aos que vigoram por aqui? Pois bem, bela história da carochinha essa. Agora a nata do axé e seus asseclas se armaram até os dentes e iniciaram uma invasão viking para pilhar e destruir a essência do único evento musical de grande porte da região a oferecer algo diferente do mais do mesmo entediante que está aí.
E o que dizer dos repetecos? Charlie Brown Jr de novo? Capital Inicial? Lenine? Só faltou Biquíni Cavadão e Nando Reis para formar a confraria do bis (ou tris). Independente da qualidade dos artistas, um festival que ainda não chegou à adolescência se repetir tanto não é bom sinal. Na verdade é um termômetro do estado decrépito pelo qual o cenário de rock-mpb mainstream passa. Se por um lado o cenário alternativo-independente fervilha de boas novas (Móveis Coloniais de Acajú, Cidadão Instigado, Ana Cañas e mais uma porrada de gente...), os grandes nomes vão cada vez mais se esvaindo. Uma banda como o Titãs, que está respirando por aparelhos desde o século passado, ser tratado como novidade, é sofrível de ver. Para as grandes mídias (principalmente rádio e TV), os anos 80 não acabaram, e os anos 90 se anunciam como algo a ser amplamente re-explorado. E os organizadores de festivais (a maioria) pensam da mesma maneira. Nada contra trazer novamente um artista que fez sucesso em um evento passado, mas é preciso também dar espaço para o que acontece de novo, dar um sopro de juventude, tem muito artista de enorme potencial por aí só esperando oportunidades para aparecer.
Lucros Keke, o mundo é movido a lucros... ouvi muito isso, e concordo, não adianta pegar a carona fácil da utopia ululante onde as coisas podem ser do jeito que nós desejamos, e que os céus irão conspirar para que tudo saia perfeito. Há quem diga que o FIB deu prejuízo ano passado, o que não deixa de ser uma - meia - verdade, em parte por causa do fantasma da H1N1 (a outra parcela foi pela grade mesmo, sem sal), que foi um balão de ensaio, isso sim. A voz corrente é que o Festival apenas com artistas de pop rock, MPB e reggae não segura a onda do dindim, mas afirmar isso é ignorar o êxito das edições de 2005 até 2008. Essa discussão vai longe, mas o fato é que agora a Rede Bahia e a IContent (organizadoras do FIB) farão de tudo para criar uma sucursal do Festival de Verão em pleno Inverno. Idiossincrático até a medula. Mas o importante é o money, of course my friend!
Apesar dos pesares, vou lá ver Lenine (perdi da outra vez) e Jorge Ben (palmas para quem o contratou). Talvez Capital Inicial e Titãs. Diogo Nogueira eu vou ‘curiar’. Esse ano a palavra de ordem é mudança, não tão rápida para atenuar o trauma... Em 2011 veremos o próximo capítulo. Para os otimistas, a tenda alternativa pode reservar boas surpresas. Espero voltar aqui para elogiar as escolhas da organização para ela. Ao menos.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

É de Oxum!?

Esses dias o Keke estava aqui comentando sobre a visita do Gilberto Gil a Jequié, quando o artista rebateu as críticas de alguns evangélicos contra a temática do São João da cidade, o slogan da festa fez menção a uma entidade do candomblé. Misturar festa junina com homenagem ao candomblé não chega a ser mistura de religião, porque as festas juninas da maneira que são comemoradas não tem nenhum relacionamento com religião (o São João é católico só no nome, de resto a festa é totalmente mundana). Ficou o episódio como prova de que a imagem da Bahia como o estado do sincretismo religioso por excelência é jogada de marketing, assim como muita coisa no Brasil, cartaz para turista ver.

No dia 30 de junho, mais uma vez, tivemos a oportunidade de testemunhar a mentalidade retrógrada e preconceituosa do povo (baiano, brasileiro, terráqueo): um candidato a deputado federal foi barrado por seguranças no TRE da Bahia porque trajava um adereço de candomblé. O candidato estava no tribunal para consultar a prestação de contas da campanha e foi impedido de entrar no prédio. Detalhe: ele é negro. O candidato, do PRP, fez uma representação contra o TRE/BA na Comissão de direitos humanos da Assembléia legislativa alegando discriminação racial e religiosa.

Depois do caso entornado, lógico, o Tribunal voltou atrás e disse que foi tudo um mal entendido.

Questiono os regulamentos de vestuário dos tribunais. Impor padrões de vestuário é um ato discriminatório sim, além de limitante e excludente. Então, só quem é capaz de defender os próprios interesses e os interesses coletivos são pessoas que tem dinheiro para comprar sapatos, ternos, gravatas? Os cidadãos de pés no chão são burros demais para ir aos tribunais? (Equação: preto+macumbeiro+pobre= marginal). A Justiça exclui não só a diversidade cultural, também exclui os cidadãos das classes menos privilegiadas.

O cidadão não pode registrar os filhos porque não tem calças compridas para entrar no fórum. Consultar os búzios e assistir os afoxés faz parte da nossa cultura (elevadíssima cultura, viva a diversidade!), mas os cultos africanos são bem vistos só durante o carnaval, da quarta feira de cinza em diante eles que se vistam como todo mundo.

Não vamos esquecer que os piores calhordas deste país usam ternos de grife e respondem por “doutor” e “excelência”, e são eles próprios que inventam regras idiotas sobre como as pessoas devem se vestir para ter acesso a espaços onde por direito todos deveriam ser iguais.

E assim seguimos, preconceituosos e hipócritas.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Operação Jaleco Branco ?


Vocês já ouviram falar na operação Jaleco Branco? Não? Como não? Aquela feita pela Polícia Federal e denunciada pelo Ministério Público Federal que investiga “supostos” crimes cometidos em licitações públicas para serviços de vigilância, limpeza e segurança na Prefeitura de Salvador (BA) e secretarias no Estado da Bahia e na Universidade Federal desse estado. O requinte de pilantragem  dessa história é a suspeita de que o esquema tenha durado por volta de vinte anos no estado.
Lembrou? Não? Nada estranho:  as TVs estaduais não fizeram grande estardalhaço em cima do caso, os jornais deram notinhas, quase ninguém lê jornal (corrijo, quase ninguém lê, você é elite neste país, amigo), o assunto vai ficando velho, a Justiça já está no caso há 3 anos e nada se resolve.
Vamos fazer assim, tente gravar o nome: Operação Jaleco Branco. De vez em quando, joga a frase em algum buscador e vê se a coisa está andando. Não seja preguiçoso, é do nosso dinheiro que estamos falando, oras!
Passe os olhos nas últimas notícias sobre o caso:
No site do Superitor Tribunal de Justiça

No Correio Forense

domingo, 4 de julho de 2010

MP aciona Tim por propaganda enganosa

Há poucos dias atrás o Ministério Público da Bahia acionou a Tim por propaganda enganosa. Achei o máximo isso, resolvi postar a notícia aqui porque só achei menção ao acontecido no site do próprio Ministério Público. (Vá entender não é, por que eu fico lendo notícia diretamente dos sites oficiais).

Não tenho nada contra a Tim (só o fato de ter contratado o serviço deles uma vez e precisar rescindir o contrato porque não entendi no momento da assinatura o quanto o contrato não explicava como era desvantajoso os serviços em questão). Também não tenho nada contra a Claro (só o fato de ter rescindido o contrato quando eles resolveram inventar cláusulas que não estavam lá), mas eu acho que a solução para a insistência das empresas privadas, especialmente as prestadoras de serviços, em encher seus contratos de armadilhas é uma onda de processos na justiça que façam o bolso deles doer. E mais, é claro, o discernimento da Justiça em não acobertar a malandragem.
Alguns meses atrás eu li sobre a regulamentação daquelas mensagens promocionais que inundam nossas caixas de mensagem, muitas delas maliciosas. Pois é, a gente recebe aquela pilantragem de "Você ganhou um carro, envie XXX para tal número", porque na hora de assinar o contrato a empresa de telefonia não estipulava o local certo para dizermos "não, não quero receber mensagens promocionais". Agora é obrigatório que o campo para optar ou não pelas mensagens chatinhas apareça em separado e em destaque no contrato. Confira aí quem for assinar algum contrato por estes dia. Do meu lado eu já me escaldei, meu negócio é passar o resto da vida com telefone pré-pago, contrato nunca mais (os anjos digam amém, plz).

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

Nordeste de luto, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

Ler o artigo do Gogó sobre os desastres em Pernambuco e Alagoas me fez lembrar da minha infância. Lembro de ter sido espectadora assídua do programa do Jacques Cousteau e de outros programas da TV Pública (Cultura, TV Escola, etc) que falavam sobre os perigos das mudanças climáticas desde aquela época, entre fins dos anos 80 e início dos 90. Aquecimento Global, elevação do nível do mar, desertificação, esses termos nunca me foram estranhos, e não deviam ser estranhos para ninguém.

De lá para cá o mundo mudou bastante, a tecnologia evoluiu, os transportes se modernizaram, comportamentos foram reformados, mas a postura das pessoas quanto as ameaças ecológicas permanece basicamente igual: indiferença.

Talvez falte aos nossos governantes, empresários e à população em geral acontecer o mesmo que acontecia comigo quando em menina eu assistia aos prospectos sobre a situação do mundo em que eu viveria dali a 10 ou 20 anos: eu sentia medo. E ainda temo pelas condições de vida que terei aos 60 anos, e sobre as condições de vida da minha filha, dos meus netos, meus bisnetos.

Conseguiremos reverter o futuro desconfortável que a natureza reserva para nós daqui a uma ou duas décadas mais? Teremos água para beber? Nossas casas estarão no mesmo lugar? Viveremos amontoados sobre o lixo que estamos produzindo agora? Estaremos vivos?

A cobrança da falta de planejamento das últimas gerações já recai sobre nós hoje, em forma de enchentes, estiagens prolongadas, deslizamentos e coisas mais graves. Não estamos passando fome, mas uma grande parcela da população mundial está. A corrida entre a implementação das tecnologias agrícolas e o aumento da população é covarde. Sem uma tomada de consciência global, a carestia de alimentos e a fome serão comuns como a poluição visual e sonora que nos assalta a cada esquina.

As especulações apocalípticas dos ambientalistas parecem-se cada vez menos com especulações. A mais temerável das especulações sobre o homem moderno está se concretizando, ele não acredita em especulações, espera o ver para crer.

As visões nos saltam aos olhos, são críveis e palpáveis. Falta reagirmos.

Golfo do México, 3 meses e 11 dias após...

...o maior desastre ambiental da história americana. Dia 20 de abril, a plataforma de exploração Deepwater Horizon, de propriedade da petrolífera britânica BP, explodiu e afundou, matando 11 funcionários.

O que se viu desde então foram tentativas frustradas de conter um vazamento monstro de petróleo cru para as águas do Golfo do México, região com ecossistemas extremamente comprometidos devido à intensa exploração petroleira, que perdura por décadas.

Milhões de barris já escaparam para o mar, deixando uma gigantesca mancha negra de centenas de quilômetros de extensão, visível para qualquer um que olhe das janelas dos aviões que sobrevoam a área, isso se o tempo estiver bom. Por falar em tempo, a temporada dos furacões está começando, o que só complicará os trabalhos para conter o vazamento, que hoje está estimado entre 35 e 60 mil barris por dia. O acidente com o petroleiro Valdez, da Exxon, parece diminuto diante das proporções colossais que este episódio assumiu.

A proprietária da famigerada plataforma, a British Petroleum (BP), é um dos quatro grandes conglomerados da indústria petrolífera mundial (os outros são a ExxonMobil, Shell e Chevron). Apesar de anunciar recentemente que os gastos para conter os estragos já chegaram a 1,6 bilhão de dólares, os resultados das medidas adotadas são claramente insuficientes para resolver o problema. Congressistas acusam a empresa de negligência com aspectos de segurança (o que não é nenhuma surpresa), e o presidente Barack Obama decretou preventivamente uma moratória de seis meses (que foi cassada na justiça, e no momento encontra-se indefinida) impedindo a exploração de petróleo em águas profundas (o local do vazamento fica a 1500 metros de profundidade). Especula-se que acidentes de natureza semelhante possam ocorrer, uma vez que as medidas de segurança adotadas pelas petrolíferas não parecem assim tão confiáveis.

Os danos ambientais são incalculáveis. Os prejuízos econômicos soam como uma ferida incômoda em um corpo ainda convalescente dos efeitos da crise econômica, doença grave que afetou a saúde de países do mundo inteiro. E os EUA ainda se preocupam com sua situação energética, já que o petróleo (ainda) é uma das fontes de energia mais importantes do país, portanto uma diminuição da produção não interessa a ninguém.

A imprensa, que cobriu exaustivamente os desdobramentos do acidente no primeiro mês, passou a praticamente ignorar a existência de um contínuo vazamento de petróleo no mar, exceção feita a imprensa norte-americana, por motivos óbvios. Os holofotes estão todos voltados para a Copa do Mundo, este acontecimento mundial extremamente importante para os rumos de nossas vidas. Mais equilíbrio na elaboração das pautas, e nas escolhas do que é importante para o público não faria mal a ninguém, nem aos bolsos das empresas jornalísticas.

Para encerrar o post, uma demonstração de pessoas que queriam fazer algo pelo bem do meio ambiente:

Este show foi realizado em 1990, alguns meses após a catástrofe com o petroleiro Exxon Valdez. A banda no vídeo - O Midnight Oil – estacionou o caminhão na frente da sede da empresa em Nova York, para realizar um show protesto. Peter Garrett (ativista do Greenpeace) & Cia tocaram para uma pequena multidão que se aglomerou curiosa. Tempos depois a banda se dissolveu, e o líder Peter Garrett se elegeu deputado pelo partido verde australiano, estendendo o seu ativismo para as fileiras do Congresso.


“Now I'm trapped like a dog in a cage
Wherever the truth is pursued
It must be the curse of the age
What's taken is never renewed”

“Agora estou aprisionado como um cão em um canil
Sempre a verdade é perseguida
Isto deve ser a maldição dos tempos
O que está sendo tomado não será renovado”


Em 1990 isso já estava mais do que claro para os rapazes do Midnight Oil. Triste e irônico constatar que 20 anos depois ainda tem gente que não se preocupa.

Gilberto Gil no São João de Jequié

Poucos dias atrás perguntei a um amigo como havia passado de festejos juninos. Ele me disse “fiquei em casa mesmo, mas no sábado (26-06), fui para Jequié ver Gilberto Gil, grátis”. Na mesma hora pensei “porco infiel, nem convida”, mas pouco depois deixei a ponta de inveja de lado para me perguntar quantas vezes no ano ocorrem oportunidades de ver e ouvir um artista tão gabaritado assim, cânone da música popular brasileira, FREE. Pouquíssimas vezes, conclui um par de minutos depois. Só me resta lamentar...
E lembrar de como o homem é bom [:)]



Ah, e no final do show (público estimado em 60 mil pessoas), ainda houve entrevero com evangélicos:



Sem querer entrar nos méritos de quem está certo ou errado (até porque não existe certo e errado nessa história), a constatação que fica desse episódio é que a Bahia, tida como sincretista (mistura de religiões), berço da cultura afro no Brasil, na realidade é mais ortodoxa do que pintam por aí. Mais um exemplo de que a Bahia não é apenas Salvador e Recôncavo. As diferenças culturais (especialmente religiosas) entre capital e interior são flagrantes.

terça-feira, 29 de junho de 2010

O problemas dos pobres não é a chuva



“Quando chove no sertão
O sol deita e a água rola
O sapo vomita espuma
Onde um boi pisa se atola
E a fartura esconde o saco
Que a fome pedia esmola”
(Chover (ou Invocação Para Um Dia Líquido); Cordel Do Fogo Encantado; Composição:  Lirinha, Clayton Barros)
Li esta semana uma lúcida declaração do Senador Cristovam Buarque sobre a questão da chuva no nordeste. O senador lembrou aos seus companheiros no Senado que o problema do nordeste com a chuva não é porque “a chuva não goste dos pobres”, tão pouco porque os pobres não gostam da chuva.
Por aqui, a chuva é benção, é aguardada ansiosamente todos os anos para irrigar as plantações de quem não pode contar com as mega obras do governo para desviar rios de seus cursos.Quando a chuva vira vetor de destruição na região, cabe-nos entender que fatalismo não resolve a situação. A solução é prevenção e planejamento.
O povo da sertão, especialmente os pequenos agricultores, sabe conviver muito bem com os períodos de chuva e de escassez: cultiva espécies resistentes à escassez de água, planta no tempo certo, reserva energias e recursos para atravessar as estiagens, põe mãos à obra quando vê as nuvens se aproximarem.  Nosso povo gosta, precisa e respeita o ciclo da natureza. A chuva, como qualquer pessoa adulta sabe, não é uma entidade capaz de amar ou desgostar de ninguém, é apenas parte do ciclo das águas na natureza. A obrigação de se adaptar aos ciclos naturais e às mudanças que a irresponsabilidade humana causam a estes ciclos é das pessoas ... e do Governo.
Em sua declaração, Buarque distribui muito bem as responsabilidades sobre as tragédias  humanas ocorridas no nordeste. A responsabilidade é dos políticos, que deveriam usar os recursos e conhecimentos já existentes para evitar as perdas humanas e econômicas, e é também do povo, “porque não despertaram para um fato: o risco de que a próxima chuva destrua sua casa está dentro da urna onde depositam seus votos".
A insistência do governo em ignorar coisas essenciais (como áreas de risco de desmoronamentos e enchentes, regiões com baixa produtividade econômica em decorrência da dificuldade do acesso á água) só pode nos levar a mesma conclusão do senador Buarque: quem não gosta dos pobres são os políticos, não a chuva.
E adivinhem! Estamos no ano de eleição. Pois é, cuidado para não digitarem besteira na hora do voto. Urna não é pinico. É mais útil eleger um político com propostas concretas para enfrentar os problemas da sua região do que eleger aquele que te deu um saco de cimento. A não ser que você ache que um saco de cimento basta para desviar o curso de uma enchente.







segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ready... Go!


Olá pessoal!! Este é o meu debut post do blog ‘Náufragos no Sertão – A Pair of two Brothers’, blog nascido da insistência de minha irmã (a metade Yin – ou Yang – vocês escolhem) de escrever bobagens em conjunto com o escriba aqui, que atende vulgarmente por Keke. Por ora, maiores apresentações são dispensáveis, e logo mais minha partner comparecerá por aqui para dar (ui!) o ar de sua graça. Esperamos sinceramente que nossas bobagens (que irão versar sobre N coisas) sejam ao menos interessantes para quem nos dedicar um pouco de atenção.

Para dar o pontapé inicial (Copa do Mundo diz olá) ao blog, vou expressar minhas impressões acerca do livro ‘1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer’. Este calhamaço de 960 páginas veio para mim na forma de presente de Dia dos Namorados - talvez por eu sugerir repetidas vezes o que eu queria ganhar – e imediatamente roubou toda a minha concentração, tamanha a empolgação causada por esta bíblia musical. 1001 Discos... é fruto de um projeto extremamente ambicioso do jornalista e escritor Robert Dimery, que convocou uma legião de críticos musicais de vários cantos do globo (entre eles Michael Lydon, co-fundador da revista Rolling Stone), para parir uma seleção definitiva de 1001 álbuns fundamentais ao longo de 50 anos de música, de 1955 a 2005, ano em que foi lançado. De Frank Sinatra a The Klaxons, os personagens que definiram os caminhos da música ouvida pelo mundo, pelo menos na visão anglo-saxã, estão todos representados. Ou não, já que polêmicas inevitáveis cercam listas, seja lá de qual natureza elas sejam. Sempre haverá aquele que sentirá falta do seu amado artista que não foi lembrado, ou criticará a presença de um pereba que não merecia ser citado. Conflitos que considero extremamente naturais, levando-se em conta as particularidades do gosto musical de cada pessoa.

Ao folhear as páginas, surgem rock, jazz, blues, rap, country, MPB (sim, temos alguns representantes,e não só de MPB), entre outros estilos musicais. Essa linguagem musical poliglota é um dos fatores que tornam 1001 Discos... um livro essencial para quem gosta de musica. É maravilhoso adentrar pelas décadas (o livro segue uma ordem cronológica) e se deparar com pérolas como Pet Sounds, do Beach Boys, ou ser surpreendido com obras tão imprevisíveis como Tanto Tempo, de Bebel Gilberto, que se tornou o disco brasileiro mais vendido fora do Brasil. Ou ainda torcer o nariz para Life Thru a Lens, de Robbie Williams, considerado por muitos (incluo-me) como um baladeiro mela-cueca. É impossível não se deixar levar pelo ímpeto de correr atrás de álbuns que nunca escutamos, ou tirar a poeira daquele CD (ou Mp3) que não ouvíamos há anos, só pelo sabor nostálgico de se deparar com uma resenha enaltecedora de qualidades há muito não sentidas por nossos ouvidos. Como deseja Michael Lydon no prefácio: “Espero que, ao folhear estas páginas, se sinta inspirado para procurar e incluir em sua lista de favoritos muitos outros, que sem 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, você talvez nunca tivesse a possibilidade de conhecer”